
As micro, pequenas e médias empresas ganharam protagonismo no avanço das recuperações judiciais no Brasil. O movimento mostra uma mudança importante no perfil das empresas que utilizam esse instrumento para reorganizar dívidas e manter suas atividades.
Os dados foram destacados pelo Valor Econômico, em reportagem publicada no dia 4 de agosto, assinada pelas jornalistas Luiza Calegari e Clarice Couto. Segundo a publicação, a recuperação judicial deixou de estar associada principalmente às grandes companhias e passou a fazer parte, com maior frequência, da realidade dos pequenos e médios negócios.
Segundo o presidente da Conampe, Ercílio Santinoni, desde 2023, a proporção de micro e pequenas empresas em recuperação judicial mais do que dobrou. Ao mesmo tempo, a participação das médias empresas cresceu 31%. O cenário ocorre em um período marcado por juros elevados e maior restrição ao crédito, fatores que pressionam especialmente empresas com menor capacidade financeira para suportar períodos prolongados de custos elevados.
Microempresas registram crescimento de 133%
Os números apresentados pelo Valor Econômico dimensionam essa transformação. Entre o primeiro trimestre de 2023 e o segundo trimestre de 2026, o número de recuperações judiciais de microempresas aumentou 133%.
Nas pequenas empresas, o crescimento chegou a 68%, enquanto entre as médias o avanço foi de 31%.
O comportamento das grandes empresas seguiu o caminho contrário. No mesmo período, o número de recuperações judiciais caiu 11% entre as grandes companhias e 16% entre as empresas classificadas como muito grandes.
Portanto, além do aumento geral dos processos, ocorre uma mudança na composição das empresas que procuram a Justiça para renegociar suas dívidas.
Segundo a reportagem, parte das grandes companhias passou a utilizar outros mecanismos de reestruturação financeira, incluindo a recuperação extrajudicial. Empresas menores, por sua vez, passaram a recorrer com maior frequência à recuperação judicial como alternativa para reorganizar suas obrigações e preservar suas operações.
Recuperações judiciais continuam crescendo
No primeiro semestre de 2026, o número total de recuperações judiciais cresceu 6,2% em relação ao segundo semestre de 2025.
Embora o volume continue aumentando, houve desaceleração no ritmo de crescimento. No primeiro semestre de 2025, o avanço havia sido de 7,3%. Já no segundo semestre daquele ano, chegou a 14,1%.
Considerando o período de 12 meses, entretanto, o crescimento acumulado alcançou 21,2%.
Conforme os dados apresentados pelo jornal, o estoque chegou a 6.513 empresas em maio. Em junho, ocorreu uma redução de 1,7%, primeira queda relevante da série histórica mencionada na reportagem. Ainda assim, especialistas ouvidos pelo Valor Econômico avaliam que um único mês não permite afirmar que existe uma tendência consistente de desaceleração.
Agronegócio concentra novos processos
Outro ponto de atenção está no agronegócio. Segundo a reportagem de Luiza Calegari e Clarice Couto, o setor permanece como o principal foco das novas reestruturações.
O agronegócio registrava 1.263 empresas em recuperação judicial, além de 111 novos processos somente no segundo trimestre de 2026.
Por outro lado, quando se considera o estoque total de empresas em recuperação, o comércio aparece na liderança, com 1.649 empresas, seguido pela indústria, com 1.455.
Os números mostram que as dificuldades financeiras atingem diferentes segmentos da economia e, sobretudo, reforçam a necessidade de atenção às condições enfrentadas pelos pequenos negócios.
Crédito e renegociação ganham ainda mais importância
Ercílio Santinoni destaca que, no universo das micro e pequenas empresas, o crescimento das recuperações judiciais merece atenção especial. Diferentemente das grandes corporações, pequenos negócios normalmente possuem menor margem financeira para enfrentar períodos prolongados de juros elevados, queda no faturamento ou dificuldades de acesso ao crédito.
Além disso, quando uma pequena empresa perde capacidade de financiamento ou de renegociação de seus compromissos, os impactos aparecem rapidamente no caixa, nos investimentos e na manutenção dos empregos.
Nesse contexto, instrumentos eficientes de renegociação de dívidas, acesso ao crédito em condições adequadas, educação financeira e políticas que reduzam os custos de funcionamento das empresas tornam-se ainda mais importantes.
A recuperação judicial desempenha uma função prevista em lei para permitir a reorganização de empresas economicamente viáveis. Entretanto, o forte crescimento desse instrumento entre micro e pequenas empresas também funciona como um sinal sobre as dificuldades enfrentadas por uma parcela relevante do setor produtivo brasileiro.
Para as entidades que representas os pequenos negócios, como a CONAMPE – Confederação Nacional das Micro e Pequenas Empresas e Empreendedores Individuais, as Federações (Fampecs) e as Associações (Ampecs) os números ampliam o debate sobre a necessidade de um ambiente econômico que permita às empresas não apenas sobreviver às dificuldades, mas também recuperar capacidade de investimento, geração de renda e manutenção dos postos de trabalho.
Afinal, a força dos pequenos negócios está diretamente ligada ao desenvolvimento das cidades, à circulação de renda e à geração de oportunidades em todas as regiões do país.
Fonte: reportagem do Valor Econômico, de 4 de agosto de 2026, assinada pelas jornalistas Luiza Calegari e Clarice Couto.
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